
JAZZ DANCE:
Sincretismo, transformação, liberdade e inclusão
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Com origem na rica cultura africana, o jazz dance se consolidou no cenário brasileiro, com coreógrafas que imprimiram seu estilo à dança, promoveram o intercâmbio com o contexto internacional e inspiraram bailarinos que hoje se projetam em diferentes festivais. Nesta web reportagem, veja como essa arte, para além de encantar, desempenha um papel transformador na vida dos que a praticam, contribuindo com a inclusão.
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- Renaaaan! Vem experimentar a sapatilha. Quero ver a qualidade dela.
- Tá booom, mãe! Já tô indo!!
E assim o menino que estava quase sempre com os pés pretos de sujeira, de tanto brincar descalço com outras crianças na quadra do prédio em que vivia, pegava o elevador, deixando os amigos de lado, pra subir para seu apartamento e provar o calçado e outros apetrechos de dança. Ele estava acostumado com este e outros pedidos de uma mãe que era professora de jazz. E não qualquer professora. Coreógrafa, Roseli Rodrigues criou técnicas próprias para essa arte nos anos 80, firmando-se na década seguinte como um dos principais nomes do jazz dance no Brasil.
Em 1981 inaugurou em São Paulo, também na zona norte, a academia Long Life e fez tanto sucesso com a coreografia “Raça”, inspirada na música homônima do compositor e cantor Milton Nascimento, que resolveu mudar o nome de sua escola para Raça Centro de Artes, também chamado de Grupo Raça. Em pouco tempo o centro de dança localizado no bairro da Vila Maria Alta, tornou-se conhecido entre os praticantes do jazz em São Paulo e em outros lugares do Brasil, graças a desempenhos elogiados em festivais e prêmios conquistados. Hoje, a escola possui um novo endereço, no bairro do Tucuruvi, ainda na zona norte.
“Minha mãe começou a se dedicar ao jazz aos 21 anos, durante sua graduação em Educação Física e nunca mais parou. Foi assim até a sua morte. Conseguia criar técnicas próprias e incorporá-las ao corpo de seus bailarinos, que adquiriam facilmente consciência corporal”, diz Renan, com os olhos orgulhosos da carreira de Roseli. Hoje, ele é diretor do Raça Centro de Artes.
Falecida precocemente em 2010, vítima de um câncer linfático, Roseli montou coreografias memoráveis como Corpos em Liberdade, de 1986; Devaneios, de 1987; De Minh’Alma, de 1997; Novos Ventos, de 1999; e Caminho da Seda, de 2002. Um ano antes de morrer, em 2009, ganhou o 1º Prêmio Teatro de Dança, com o espetáculo Tango Sob Dois Olhares.
Coreografou para outras companhias brasileiras, como a Vacilou Dançou, dirigida por Carlota Portella, no Rio de Janeiro, e o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba. Também foi coreógrafa de produções no teatro musical, como Vítor ou Vitória, peça dirigida por Jorge Takla e estrelada por Marília Pêra, e Goodspell, com direção de Miguel Falabella. No cinema, assinou a coreografia do longa-metragem Acquária, que teve como protagonistas os cantores Sandy e Jr., com a direção da cineasta Flávia Moraes.
Renan e Roseli: o amor pelo jazz passado de mãe para filho
Créditos: Acervo pessoal/Renan Rodrigues
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Mas Roseli não foi o único nome importante na consolidação do jazz dance em nosso país. Outras coreógrafas prestigiadas, como Joyce Kermann (falecida em 2006, também de câncer), que antes de Roseli já fazia história, contribuíram significativamente para a projeção e o fortalecimento desta modalidade artística. Joyce iniciou sua jornada no mundo da dança ao ingressar na Escola Municipal de Bailado do Theatro Municipal de São Paulo, seguindo o desejo de sua família. Embora o balé clássico não fosse sua grande paixão, a necessidade de financiar sua educação a conduziu a uma carreira como bailarina. Assim, aos 13 anos, ela já se apresentava profissionalmente nos palcos. No ano de 1968, no auge da ditadura militar, tentou ingressar no curso de Comunicação Social na Universidade de São Paulo (USP). Entretanto, devido ao clima de repressão que assolava o país naquela época (expressar ideias e opiniões podia ser perigoso), escolheu estudar administração.
Após completar sua formação, Joyce inicialmente planejava se afastar da dança e explorar novas oportunidades. No entanto, sua trajetória tomou um rumo inesperado. Ela ingressou em uma loja de departamentos com a intenção de aprimorar os desfiles de moda. Lá, sua criatividade a levou a conceber sequências de dança, adicionando movimento e dinamismo às apresentações das modelos. Não demorou muito para que sua habilidade chamasse a atenção e resultasse em convites para participar de programas de televisão populares, como 'Fino da Bossa' e 'Jovem Guarda', veiculados pela Record. Naquela época, a contratação de bailarinas era comum, pois o mercado era carente de talento. Conforme observado pela coreógrafa em entrevista concedida à Revista Dança Brasil, em 1991 (disponibilizada no canal do YouTube Dança Brasil Oficial), naquele tempo havia aproximadamente 20 intérpretes que se apresentavam tanto na televisão quanto em outros lugares.

No artigo "Jazz Dance: Um Brasil de Movimento", presente no Blog Só Dança, Marcela Benvegnu que, além de jornalista e crítica de dança, é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (Pontíficia Universidade Católica de São Paulo) e pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), fala sobre a importância de Joyce Kermann e Roseli Rodrigues. "Durante a minha pós-graduação em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia, tive o privilégio de entrevistar as duas. Elas foram responsáveis por grande parte da preservação deste estilo de dança em nosso país."
Marcela, que também foi entrevistada por esta reportagem, destaca que o centro de danças criado por Joyce em 1976, o Joyce Ballet, foi importante para a disseminação da modalidade jazz dance em São Paulo. "Como a filosofia da escola era promover o intercâmbio entre professores internacionais e bailarinos, os alunos puderam entrar em contato com as mais diversas técnicas e estilo. Nomes como Dale, Redha Bentefour, Fred Benjamin, Smith, Frank Hatchett, Phil Black e Ricky Adamms foram alguns que passaram pelas salas do Joyce Ballet.”
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RAIZ AFRICANA E SINCRETISMO
O jazz dance é resultado de uma fusão de relações e costumes da cultura da população africana, que prosperaram nos territórios americanos a partir do século XVIII. Suas raízes estão no movimento de escravizados das grandes plantações de algodão e tabaco, refletindo diferentes tipos de influência. “Por um lado eram apreciados ritmos e bailes africanos que duraram muito na consciência coletiva dos negros. Por outro estavam as manifestações de origem religiosa, nas quais etnias diferentes tinham em comum o mesmo ritual, como dançar para a chuva para pedir fecundidade ou para celebrar um nascimento”, explica Marcela no artigo “Reflexões sobre jazz dance: identidade e (trans)formação”, publicado em dezembro de 2011, na revista científica Sala Preta, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
O jazz dance não nasce meramente como um espetáculo, mas como uma forma de comunicação. “As danças serviam como suporte de narração de aventuras fabulosas e sucessos cotidianos próprios de sociedades que desconheciam o uso da escrita. Nesse sentido, esses movimentos duraram mais nos territórios americanos do que em outros países, que também sofreram uma invasão massiva de escravos – como as Antilhas e o Brasil – e que posteriormente aderiram a ritmos como: mambo, cha-cha-cha, conga, merengue e samba”, completa Marcela.
Anielle Lemos, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), também fala sobre o papel que o jazz dance possuía, em sua origem, nas comunidades escravizadas. No artigo “As transformações do jazz dance: um recorte histórico da diáspora afro-americana até os dias atuais”, publicado em 2018 nos anais do X Congresso da Abrace (Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas), ela salienta que a dança significava “uma forma de expressão para além do representativo”. Servia como meio de afirmação da cultura desse povo.
Anielle, que é também bailarina, coreógrafa e professora, ressalta que o jazz dance carrega diversas matrizes estéticas africanas. “Os pés deslizando em contato ao solo, o movimento centrífugo partindo dos quadris para as extremidades, o ritmo propulsivo, a musicalidade, o balanço (swing) e a mobilidade do tronco são exemplos de algumas dessas matrizes.”
Marcela Bengvenu lembra que, por conta do interesse dos brancos em liquidar os ritos e as formas folclóricas dos escravizados, os negros só tiveram recursos para expandir seus costumes religiosos (que como dito antes estão na raiz do jazz dance) a partir do surgimento do cristianismo protestante dos brancos que, aos poucos, absorveu esses costumes, dando a eles um caráter próprio. “As cerimônias religiosas surgiram em forma de musicais, que foram muito importantes nos Estados Unidos, nos quais o canto acompanhava os movimentos rítmicos”, explica Marcela.
Paralelamente, a crítica de dança salienta que os negros criaram outras formas de manifestação como as blues ballads e as worksongs (músicas criadas no trabalho), que eram cantadas em coro, sendo regidas por um mestre. Outra grande influência no gênero jazz dance veio da música e da dança branca, mais propriamente da música popular de raiz europeia. “Parece claro que a influência se deu por via de imitação, as polcas, quadrilhas, marchas, danças irlandesas e bailes ingleses – como o clog – começaram a se misturar com danças autônomas para dar lugar ao que hoje chamamos de jazz.”
Daí se falar em sincretismo, quando o assunto é a origem dessa dança. O jazz dance é um testemunho da resiliência e da capacidade de adaptação das culturas, além de uma forma de expressão que abraça uma rica rede de influências. É uma arte eclética, originada da fusão de diversas tradições de performance.
“Os negros elevaram as mudanças da dança africana transformando-a em jazz, mas foram os brancos que começaram a dançá-la primeiro em lugares abertos.” A citação aparece no livro “Primeros Pasos en Jazz Dance”, publicado em 1987 pela editora Parramón.
No século XX, as danças afro-americanas começaram a entrar para os salões e a sofrer novas influências, por exemplo do can-can e do charleston. Aos poucos o jazz dance ganhou os palcos da Broadway e de Hollywood.
Marcela confirma que embora a raiz da dança seja africana, foram os brancos que a popularizaram em grandes palcos, até por conta do alijamento das culturas negras, em face do racismo. Dentre os bailarinos e coreógrafos brancos que foram essenciais para criar uma estética moderna para essa dança e popularizá-la estão Jack Cole e Katherine Dunham.
Cole foi um dos primeiros a estabelecer fundamentos do jazz dance moderno, com a técnica de isolamento das partes do corpo que influenciou diversos bailarinos e coreógrafos prestigiados como Matt Mattox. Foi considerado o pai do jazz dance teatral por seu papel na codificação dos estilos de jazz afro-americanos, que foi essencial para que a dança fosse apreciada nos palcos. Katherine Dunham, que além de coreógrafa era antropóloga, bebeu muito nas raízes da dança negra e nos rituais. Foi pioneira no uso da coreografia folclórica e étnica e uma das fundadoras do movimento de dança antropológica. Como salienta a professora de jazz dance Cristina Torino, em um artigo disponível na internet com a biografia de grandes nomes dessa arte (publicado para a escola municipal de artes de Taubaté, no interior de São Paulo), Katherine mostrou ao mundo que a herança afro-americana era bonita e merecia ser reconhecida. “Katherine é creditada por trazer essas influências do Caribe e da África para um mundo de dança dominado pela Europa”, diz Cristina.
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Katherine e Cole

Créditos: Get Archive - domínio público
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CARACTERÍSTICAS DA MODALIDADE
O isolamento de partes do corpo durante a movimentação, a energia irradiada dos quadris e um ritmo pulsante que leva a um balanço envolvente são algumas das características do jazz dance. A dança também é influenciada pelas técnicas e inventividade de cada coreógrafo e pelos estilos pessoais de cada bailarino, derivados de um processo de improvisação.
Muitas técnicas do jazz foram herdadas do balé clássico e da dança moderna. Em relação ao jazz, Marcela acredita existir uma técnica e muitas metodologias. “Com certeza temos uma dança universal, que dialoga com diversas escolas, linhas do mundo. O que falta ao jazz do Brasil é entendimento histórico de linguagem para que se saiba suas diversas escolas.”
À medida que se consolidou, o jazz dance passou a inspirar outros subtipos de dança. Segundo o Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro (SPDRJ), em apostila disponibilizada em seu site: o jazz dance possui hoje variações como o modern jazz dance, o soul jazz, o rock jazz, o street jazz, o feeling jazz, o popular jazz e o free style. Só para se ter uma ideia, o street jazz, por exemplo, é marcado por movimentos influenciados pelo break dance, pelo tecktoniks (um estilo de dança ligado à música eletrônica) e pelo hip hop, que apresenta passos distintivos e descontraídos.
Ao longo dos anos, o jazz tem encontrado espaço para evoluir, adaptar-se e incorporar influências diversas, refletindo a rica história de seus criadores e praticantes. Hoje, é reconhecido por sua capacidade única de libertar os bailarinos das amarras da técnica rígida e permitir que se expressem plenamente com movimentos fluídos, possibilitando um espaço de conexão com as emoções, permitindo que seus praticantes as expressem sem palavras.
Clique nos vídeos abaixo para ver o professor Welinton Leandro, executando três passos básicos do jazz:
Contratempo ou Step Ball Change
Grapevine
Compass Turn
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BRASILEIROS NO JAZZ DANCE
Pioneiras como Joyce Kermann e Roseli Rodrigues deixaram um legado hoje seguido por muitos profissionais que atuam como mestres na arte do jazz dance.
Renan, citado no início desta reportagem, é um desses profissionais. Nascido em 1984, no que ele chama de “período do boom do jazz dance no Brasil”, tinha uma antipatia pela dança quando pequeno. É que o mesmo jazz que começava a projetar o talento de sua mãe acabava por deixar Roseli longe do convívio com o filho. “Sempre tive uma certa revolta, porque eu nunca tinha a minha mãe em casa. Viver da dança exige dedicação full time e ela dava muitos cursos, então eu tinha uma rebeldia.”
Renan cresceu querendo criar distância do jazz, mas a dança foi cada vez mais entrando em sua vida, até que ele acabou se entregando completamente a ela. O preconceito com homens que dançavam era ainda mais forte nos anos 80. Renan ouvia desde indiretas a comentários infelizes escancarados. Boa parte dos garotos de seu prédio jogava futebol, vôlei e basquete, enquanto ele pouco a pouco ia entrando em outra realidade, tida, por muitos, como inaceitável para um menino.
Segundo uma matéria do portal Terra de 2015, bailarinos homens ainda enfrentavam o preconceito em busca de ampliar suas participações em companhias de dança. Assumir a dança como uma profissão é uma das principais questões quando voltamos o olhar para grandes companhias. Grande parte das escolas chega a oferecer bolsas de até 100% para alunos do sexo masculino, com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura, segundo uma reportagem do g1.
Hoje, à frente do Raça Centro de Artes, ele busca colaborar para um jazz profissional e de qualidade, com a premissa de fazer com que seus alunos vivam única e exclusivamente da dança. “Esse era o grande sonho da minha mãe e quero contribuir com ele”, diz.
O professor e coreógrafo Welinton Leandro, que atua no Espaço Dança e Vida, desfrutou dos ensinamentos passados de Roseli e hoje também tem como norte o legado de sua mestra. Diferentemente de Renan, sua paixão pelo jazz dance foi instantânea. “Quando eu vi a primeira aula de jazz profissional, perguntei para a minha professora: ‘o que eu preciso fazer pra dançar isso bem?’. Foi amor à primeira vista. Eu tinha certeza de que era o jazz que eu queria dançar.”
Welinton descobriu o mundo de possibilidades do jazz aos 17 anos e hoje, aos 45, vive totalmente entregue à dança. Assim como Renan, ele também enfrentou preconceitos por ser um homem bailando jazz. “Foi muito difícil no começo. Eu dançava escondido, as pessoas falavam mais do que hoje.” Ele fez ballet clássico, mas o jazz sempre foi sua paixão. “Tenho orgulho de dizer que eu sou do jazz.” Para ele a dança é como uma “terapia”.


O jazz, hoje, é tão presente na minha vida que, quando eu não posso praticá-lo, é como se faltasse um pedaço de mim. Se eu estou com um problema, ele vem e me salva. Eu posso estar mal, mas quando eu chego para dar aula de jazz, eu saio outra pessoa”.
Welinton também atua como jurado em festivais de dança, que envolvem o jazz dance. Para ele, para exercer a função de jurado é preciso uma sensibilidade a mais. “Acho extremamente delicado ser jurado, porque é especial eu poder ver uma obra sua e falar sobre o seu trabalho. Eu me coloco muito no lugar do bailarino que está dançando e do coreógrafo que montou aquele trabalho”, destaca.

Welinton Leandro em diferentes performances
Créditos: Acervo pessoal/Welinton Leandro

O professor Alex Siqueira, que atua no Raça Centro de Artes, também enfrentou o preconceito e diversos estigmas ao longo de sua vida na dança. Nascido em Atibaia, no interior de São Paulo, confrontou sua família e se arriscou em uma realidade incerta.
“Eu comecei no mundo das artes pela ginástica rítmica e na época menino não fazia. Eu fiz escondido da minha mãe. Tinha 14 anos. Minha mãe foi assistir a uma apresentação minha e lá eu falei: ‘mãe, vou no banheiro e já volto’. Me maquiei e entrei no palco. E aí ela me viu. A aceitação dela foi lá”, conta.
Ingressar na dança sendo homem implicava em diversos problemas e a participação da família nesse contexto é essencial. “Eu fugia do futebol para ir ao balé, que era na rua de cima. Então, eu tive essa estrutura difícil da minha família, mas depois que a minha mãe viu que era o que eu amava, ela fazia tudo pra mim. Quem me incentivou a dançar foi ela”, diz.
A sala de aula foi, por muitos anos, a sua faculdade, onde aprendeu tudo o que sabe hoje sobre jazz. Os gastos que tinha com o transporte do interior (ele morava em Atibaia, a 56 quilômetros da cidade de São Paulo) até a capital, onde estudava no Raça Centro de Artes, beiravam os R$ 1000,00 por mês. “Não tem faculdade melhor que a sala de aula. E aí tem os outros cursos complementares, uma boa faculdade de dança, um curso técnico, mas a sala de aula é a sua faculdade”, garante.
Tendo o desejo de viver da dança, desde a juventude Alex teve que fazer escolhas que o ajudassem a seguir seu sonho. “Você quer roupa de marca ou quer ir para São Paulo fazer aula? Eu vou te ajudar, mas você vai ter que escolher”, dizia sua mãe.
“Quando eu escolhi dançar, ninguém me apoiou, só a minha mãe. Os meus amigos, na época, falavam que eu não ia ter dinheiro e que não ia dar certo. Porque no começo a gente leva muito não na cara e muita gente fala: ‘você não está preparado para isso, você é apenas um adolescente’. Mas eu sempre fui muito batalhador.”
O jazz entrou em sua vida quando sua professora Raquel Bernardes, que trabalhava na escola de ballet Mônica Dance Center, em Atibaia, o convidou para fazer uma aula. Raquel era aluna de Roseli Rodrigues. “Eu conheci o jazz com a Raquel, que fazia aula com a Roseli, mas eu nem sabia quem a Roseli era. No interior não chegava essa informação, não tem teatro, não tem cultura. A cultura que tem é muito básica.”
Quando chegou em São Paulo para fazer um curso de jazz na escola de Roseli, percebeu que era isso que queria para sua vida. “Quando eu conheci o jazz, eu me senti vivo. Porque ele permite que eu me expresse. Então, eu consigo com o meu corpo expressar o que eu sinto e em nenhuma dança eu conseguia fazer isso”, conta, com um olhar emocionado.
Alex ressalta que a “dança não define sexualidade e gênero” e ainda há uma confusão nesse sentido. “Os estigmas ainda são fortes. A coisa melhorou um pouco, mas ainda tem esse lance de que homem tem que usar cor azul, mulher rosa... Ainda tem essa coisa de dizer que a dança não é para as pessoas pretas. Mas a verdade é que a dança é para todos.”
Aos 34 anos, Alex tem um legado de muitas conquistas. Já recebeu a indicação de melhor coreógrafo de Joinville em 2022 e uma de suas coreografias, executada pela bailarina Milena Gabriela, venceu o prêmio de melhor coreografia em 2023, também no Festival de Joinville.

Alex Siqueira em diferentes performances
Créditos: Acervo pessoal/Alex Siqueira
A dança, de maneira geral, pode possibilitar diversos caminhos profissionais, como foi para a jornalista Marcela Benvegnu. Com uma carreira consolidada nessa arte há mais de 15 anos, ela fala sobre algumas dificuldades que enfrentou. “O desafio é o mercado. O nosso mercado é pequeno. Eu tive sorte, mas eu estava muito preparada. Eu sempre acreditei que era possível viver disso”, diz.
Questionada sobre a existência de um jazz dance brasileiro ela argumenta: “não existe um jazz brasileiro. Existe um jazz dançado por um corpo brasileiro”. Para ela, o jazz possui suas técnicas e metodologias, sendo uma dança universal e que dialoga com as diversas escolas e linhas do mundo.
O coreógrafo Welinton fala sobre um toque especial que os corpos brasileiros dão ao jazz quando dançam. “A gente tem uma coisa diferente na nossa dança, temos um feeling, um swing a mais, uma expressividade nossa. O jazz lá fora é muito mais voltado para o musical, principalmente na Broadway. Aqui no Brasil nós temos o jazz lírico e o dance. Quando nossas companhias vão dançar lá, é um show, é incrível a energia”, comenta.


PRIMEIROS PASSOS
Com apenas 11 anos, Laura Lindner já desenha seu futuro artístico no jazz dance. A menina começou a praticar a dança com 4 anos e hoje tenta conciliá-la com seus horários na escola e outras atividades cotidianas.
Quando uma criança ou adolescente resolve seguir carreira profissional na dança é comum ter que abdicar de alguns períodos em que estaria brincando, se distraindo ou estudando em prol de aulas regulares, ensaios e participações em festivais e competições. Essa dedicação, embora seja quase sempre desafiadora e precise ser bem dosada, pode oferecer benefícios. Dançar desde cedo permite que crianças e jovens desenvolvam habilidades valiosas, como disciplina, trabalho em equipe, autoconfiança e autoexpressão. Além disso, a dança é fonte de alegria e prazer.
Seguindo os passos de Laura, Apolo Perez também pretende consolidar sua carreira como bailarino profissional de jazz. Aos 14 anos, conta em seu currículo com uma série de participações em festivais e experiências na dança.
Para Marcela Bengvenu, “se bem empregado, com pensamento metodológico e claro, aplicabilidade psicomotora”, o jazz pode ser bastante positivo para crianças e adolescentes. “E aqui estamos falando, é claro, de jazz dance, nada de jazz lírico ou qualquer outra variante”, ressalta.
Clique no vídeo a seguir para assistir às entrevistas completas com Laura e Apolo.
Apolo e Laura em diferentes perfomances
Créditos: Acervo pessoal/Apolo Perez e Laura Lindner
O UNIVERSO DOS FESTIVAIS
Os festivais são eventos de grande importância na vida de um bailarino, pois representam uma oportunidade única de mostrar seu talento, aprimorar suas habilidades e se conectar com a comunidade artística. Além disso, desempenham um papel fundamental na promoção e preservação da cultura da dança em todas as suas formas.
Um dos festivais de dança mais renomados do Brasil é o Festival de Dança de Joinville, considerado o maior evento de dança do mundo em número de participantes, segundo o Guiness Book.
Fundado em 1983, na cidade de Joinville, no estado de Santa Catarina, o festival rapidamente ganhou reconhecimento nacional e internacional, tornando-se um marco no cenário da dança. O evento tem como premissa promover a prática e estimular o intercâmbio cultural entre bailarinos, coreógrafos e amantes das diversas modalidades.
Conhecido por sua multiplicidade, ele abraça uma ampla variedade de estilos de dança, desde o balé clássico à dança contemporânea, passando pelo jazz, hip-hop, danças folclóricas e muito mais. Essa abertura à diversidade reflete-se em sua programação, que inclui espetáculos de dança, competições, workshops, palestras e atividades educacionais, atraindo participantes de todas as idades e origens.
Uma das características marcantes do festival é a sua Competição de Dança, que atrai talentos de todo o Brasil e do mundo. Os bailarinos competem em diversas categorias e estilos, recebendo feedbacks valiosos de jurados renomados. Essa competição contribui significativamente para o crescimento e desenvolvimento de jovens dançarinos e coreógrafos.
A reportagem acompanhou a edição 2023 do Festival de Dança de Joinville. Confira, em nosso perfil no Instagram, os bastidores do festival.
Clique abaixo para ver:


JAZZ E INCLUSÃO
Durante muito tempo a dança, incluindo o jazz, foi vista como uma atividade exclusiva para corpos tidos como “perfeitos”, perpetuando estereótipos e marginalizando pessoas com deficiência. No entanto, algumas instituições e profissionais têm demonstrado que a arte pode ser praticada por todos, quebrando as barreiras da discriminação.
Pensando em uma adaptação da dança com objetivos inclusivos, Cintia Paiva, diretora da Associação Solidariedança de Arte e Cultura, desenvolveu um projeto que visa atender as demandas de dança em cadeira de rodas, elemento que se torna uma extensão do corpo. Basta que os movimentos sejam reinventados para se ajustarem às possibilidades e habilidades individuais do bailarino.
Cintia iniciou sua carreira profissional como fisioterapeuta. Ela já contava com formação em dança. Durante a faculdade de Fisioterapia, teve a ideia de ir além dos atendimentos convencionais e aliar seu conhecimento de dança a eles.
Segundo uma reportagem do portal G1 de 2021, a dança para pessoas com deficiência pode ter inúmeros benefícios, dentre eles, mentais, emocionais e de mobilidade, podendo ser vista como uma possibilidade de liberdade.
O bailarino do Solidariedança Isaías dos Santos, 38 anos, conhecido como ‘Rebô’, que em outubro de 2023 estava na República Tcheca participando de um campeonato chamado “Open Internacional em cadeira de rodas”, garantiu uma vaga no mundial de dança em cadeira de rodas que acontecerá na Itália em novembro de 2024, representando o Brasil na modalidade. Rebô conta um pouco de sua trajetória nessa modalidade e como isso transformou sua vida. Veja no vídeo abaixo uma entrevista com ele e com Cintia.
A dança é uma forma de comunicação que vai além das palavras, e o jazz não é exceção. Ele permite que o bailarino, seja ele profissional ou não possa expressar suas emoções, história e personalidade através do movimento. Essa liberdade de expressão é uma ferramenta poderosa para quebrar estereótipos e derrubar as barreiras que a sociedade muitas vezes impõe às pessoas com deficiência e abre portas, mostrando que todos têm talentos e habilidades a oferecer.
Em 2017, a Associação Solidariedança foi convidada a participar do programa “Como Será”, da Rede Globo, contando um pouco sobre o projeto.
Clique aqui para ver o Solidariedança no programa Como Será?, da Rede Globo!

JAZZ E PERTENCIMENTO
Mayara Sousa, 36 anos, bailarina e professora na escola Grand Petit Ballet e Arte, localizada no bairro Anália Franco, na zona leste de São Paulo, conta que suas memórias corporais na dança surgiram desde muito cedo. Ingressou no jazz após algum tempo já em contato com outras artes como circo, teatro e street dance, mas, após um de seus professores a encaminhar para a dança contemporânea, percebeu que precisava aprofundar seus conhecimentos em outras áreas, dentre elas, o jazz. Foi aí que se encontrou e se encantou.
Desde o início de sua jornada jazzística Mayara sentiu uma forte identificação com a modalidade. Isso porque o jazz tradicional é caracterizado por movimentos explosivos, potentes e exige, portanto, bastante força do bailarino nas execuções. E força, sem dúvida, é um dos diferenciais de Mayara. “É uma modalidade que me acolheu tecnicamente, que me mostrou que eu podia dançar profissionalmente e que me abraçou”, diz.
O jazz é conhecido por sua diversidade e abertura à inclusão, por agregar uma variedade de estilos e poder ser praticado por diferentes tipos de corpo. Isso não costuma acontecer com o balé, que muitas vezes tem critérios mais rígidos em relação à forma física e à estética. Uma das principais razões pelas quais o jazz dance é mais inclusivo está relacionado às próprias origens e evolução da dança, como já explicado neste texto. Com raízes na cultura afro-americana e influenciado por uma ampla gama de estilos musicais, o jazz casou perfeitamente com toda a história de Mayara, que é uma jovem negra e já sentiu como a modalidade pode ser inclusiva.
Mesmo com toda a sua identificação com o jazz, Mayara sentiu necessidade de buscar outras referências em dança para o seu desenvolvimento como bailarina. “Sempre tive a questão da força como um diferencial, mas como eu nunca havia feito balé clássico, eu não tinha limpeza nos movimentos. Foi aí que eu comecei a entender que eu precisava fazer balé. Mas o fato é que o balé não é a minha modalidade preferida, faço apenas porque entendo a importância dele”, comenta.

Neste podcast, disponível no Spotify, Mayara conta mais sobre como se encontrou no jazz dance e sobre outros pontos de sua rica trajetória na dança.
Clique na imagem para ouvir!
Mayara Sousa em diferentes perfomances
Créditos: Acervo pessoal/Mayara Sousa
Teste seus conhecimentos sobre jazz dance neste Quiz:
O PROJETO
Jazz Dance: sincretismo, transformação, liberdade e inclusão é uma webreportagem multimídia e transmídia, voltada a destacar como o jazz é uma das danças que se consolidou no cenário brasileiro e promove inclusão, desempenhando um papel transformador na vida de inúmeros bailarinos. O projeto também está presente no Instagram, Spotify e YouTube.
Esse projeto foi criado como Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, no ano de 2023, 2º semestre.
O Trabalho de Conclusão de Curso não reflete a opinião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Seu conteúdo e abordagem são de total responsabilidade de sua autora.
Créditos
Texto
Autora: Carolina Trancoso de Sena
Orientadora: Profª Dra. Patrícia Paixão
Coordenador do curso: Prof Dr. Hugo de Almeida Harris
Site
Montagem do site: Carolina Trancoso de Sena
Revisão de design: Juliana von Zuben
Produtos audiovisuais
Edição de áudio: Carolina Trancoso de Sena
Edição de vídeo: Juliana von Zuben
Gravação do vídeo: Carolina Trancoso de Sena
Perfil no Instagram: (@_jazz.dance)
O vídeo utilizado na forma de gif no cabeçalho deste site foi captado pela autora durante a cobertura que ela fez para o Instagram deste projeto do 40º Festival de Joinville, de 2023.












































